E agora, Cristina?

A presidente Cristina Kirchner ganhou um enorme problema para resolver. Seu nome é Julio Cobos, o vice-presidente da nação. Um dissidente da União Cívica Radical - partido historicamente rival do Justicialista (peronista), que é o da presidente - que se juntou à Frente para a Vitória, encabeçada por Cristina, nas eleições do ano passado.

Foi Cobos que deu a idéia de encaminhar ao congresso argentino o projeto de lei que regulamentava as retenções agrícolas. Cristina, certa de que sua influência política prevaleceria no legislativo, concorcou e achou que esta seria a solução ideal para acalmar os ânimos dos líderes rurais e enfiar seu projeto goela abaixo do país.

Mas, aconteceu o que mais se temia. O vice-presidente, que nunca escondeu ser um crítico das retenções, teve a ingrata missão de desempatar uma votação que terminou inacreditavelmente empatada, com 36 votos para cada lado. E mais: de pôr fim a um conflito que literalmente vem dividindo o país. 

Em seu discurso, que antecedeu o anúncio do voto, Cobos falou de consenso. Disse que não poderia ratificar algo que causou discórdia dentro do próprio Partido Justicialista. Afirmou que, embora faça parte de um governo, tem origem em outro campo político, e que por isso poderia discordar de algumas coisas e agir de acordo com suas convicções. “Isso é pluralidade”, sacramentou.

E votou contra.

Do episódio, fica uma importante lição. Ao falar de consenso, Cobos mandou uma mensagem muito clara à presidente. Governos e presidentes são dois elementos absolutamente diferentes na esfera política. Um presidente - ao menos em um regime democrático - jamais governa sozinho, impondo decisões aos berros. É preciso negociar. É preciso que a própria sociedade seja uma coalizão. 

E, se a coalização não funciona porque não há cooperação, e sim imposição, nada dá certo.

Se, lá no início, há 128 dias, a presidente Cristina tivesse se colocado à disposição para pelo menos dialogar, muitos danos - inclusive à sua própria imagem - poderiam ter sido evitados.

Quanto ao impasse criado em nível presidencial, Cobos já disse que não renuncia. E, sendo assim, Cristina terá de engoli-lo. Ao votar contra o governo, o vice se transformou em um símbolo para os líderes rurais e ganhou projeção. Portanto, ai de Cristina se encontar um dedo nele.

Diplomacia de miss

Ainda que Hugo Chávez e Álvaro Uribe tenham feito as pazes, as desavenças entre Venezuela e Colômbia prosseguem em outras, digamos, áreas de conhecimento.

Adivinhem de que países eram as duas belas que ficaram para a final do concurso da Miss Universo 2008, realizado ontem, no Vietnã? Olhem para a foto do cabeçalho. São as duas que estão mais à esquerda.

Brasilianas

O Brasil é o país da piada pronta. Disso, ninguém tem a menor dúvida. E olha que não estou falando da convocação do Ronaldinho Gaúcho para as olimpíadas, claramente imposta pelo manda-chuva do futebol brasileiro, Ricardo Teixeira, com a bênção da rede plim-plim de televisão.

Abaixo, dois fatos nos quais me baseio para falar de piadas.

1. O comentário do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI do Mensalão, que demonstrou surpresa ao tomar conhecimento da prisão de Daniel Dantas, realizada pela PF: “Não esperava que ele fosse preso pela sua importância, mas o Ministério Público e a Polícia Federal são distantes desses embates políticos que muitas vezes envolveram Daniel Dantas. Para eles, é doa a quem doer, mesmo que seja uma pessoa como Daniel Dantas.”

Isso me leva a pensar que, por ser um sujeito endinheirado e poderoso, Dantas só poderia ser preso porque ainda existem instituições que insistem em colocar em prática um conceito que tanto tem caído em desuso, como a justiça.

2. A décima estimativa da safra nacional de grãos para o período 2007/2008, apresentada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do governo federal: embora haja uma ligeira redução de 0,6% em relação ao último levantamento, de junho, o país deverá ter a maior safra de grãos de todos os seus 508 anos de história. Serão 142,42 milhões de toneladas, das quais 70,9% correspondem apenas às safras de milho (57,5 milhões de toneladas) e soja (59,8 milhões de toneladas).

É engraçado pensar que, enquanto os oito donos do mundo se reúnem no Japão para discutir a escassez dos alimentos, em um país com enorme potencial de produção, como o nosso, o agronegócio continue a despejar mais do mesmo no mercado internacional. Afinal, o que dá mais dinheiro, hoje, do que vender commodities agrícolas? 

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Aviso: Este blogueiro volta do exílio e promete, daqui em diante, acompanhar de perto os tantos episódios que vêm conturbando o nuestro querido continente nos últimos tempos.

A Copa da vergonha

“‘Irmãos latino-americanos!’ A voz metálica do general Jorge Rafael Videla ressoou no vestiário da seleção peruana no estádio de Rosario. Era 21 de junho de 1978. Os jogadores vestiam-se para entrar no campo em dez minutos quando, sem aviso, entrou o ditador argentino. Alguns estavam de cueca.

‘Não sabia se terminava de me vestir, o que poderia ser interpretado como falta de educação, ou se o cumprimentava seminu’, disse um dos jogadores ao colunista esportivo Ricardo Gotta, autor de Fomos Campeões, livro que analisa a Copa. Gotta disse ao Estado que Videla, ‘especialista em demonstrações mais ou menos explícitas de intimidação’, discursou sobre a ’solidariedade’ entre os dois povos. A seu lado, em silêncio, estava o ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, habitué de Copas do Mundo. O recado de Videla estava dado.”

Assim começa uma das três reportagens publicadas hoje pelo Estadão, todas assinadas por Ariel Palacios, correspondente do jornal em Buenos Aires. Na série de textos, diz-se que, com 30 anos de atraso, os argentinos finalmente estão perdendo o medo e a vergonha de assumir que a Copa do Mundo de 1978, sediada e vencida por eles, foi completamente arranjada.

No mundial de 78, tudo e todos jogaram a favor da ditadura militar que governava a Argentina, naquele momento já encabeçada pelo general Videla. Uma das reportagens de Ariel Palacios revela até um acerto com o então presidente da Fifa, o brasileiro João Havelange, ocorrido em 77, para referendar o país como sede.

Quanto à inesperada vitória de 6 a 0 sobre o Peru, que acabou conduzindo a seleção argentina à final do campeonato, hoje tem-se certeza de que foi um resultado acertado ainda nos vestiários, bem antes do pontapé inicial da partida.

E a população argentina, embriagada com a alegria de uma conquista inédita, ignorava a situação de 20 mil pessoas que, naquela época, já eram dadas como desaparecidas e sofriam nos porões dos centros clandestinos de detenção.

Aqui se faz…

Deste lado do oceano, Hugo Chávez disparou contra a nova legislação aprovada pelo Parlamento Europeu para punir os imigrantes ilegais. A regra é simples. Os países que colocarem essas medidas em prática - ou seja, que passarem a prender os imigrantes por até 18 meses para depois expulsá-los sumariamente de seu território - sofrerão duas represálias. Primeiro, ficarão sem o petróleo bolivariano. Segundo, as empresas dessas nações não poderão mais investir na economia venezuelana.