O lado B do discurso
Em seu discurso de hoje, quando foi ovacionada por partidários de sua Frente para a Vitória, Cristina Kirchner falou coisas que não foram parar nas páginas de nossos jornais.
Antes de, a seu modo, chamar os agricultores ao diálogo, ela pegou pesado com a classe média porteña, que havia ido para a rua de cacerola na mão nas duas noites anteriores.
Sobre os panelaços, a presidente não pestanejou ao dizer que se tratava de um movimento político, orquestrado por gente que não tem nada a ver com os problemas do campo. Chegou, inclusive, a afirmar que havia quem estivesse carregando cartazes com os dizeres “Vuelve Videla”, como se pedisse o retorno do primeiro presidente do regime militar argentino, que entre 1976 e 1983 fez sumir 30 mil vidas.
Para ela, tudo não passou de uma ação conjunta dos que discordam da política de Direitos Humanos levada a cabo pelo casal Kirchner com os que perderam as eleições presidenciais do ano passado. Cristina afirmou que, vendo as imagens dos protestos da Praça de Maio, pôde reconhecer rostos de conhecidos defensores dos “genocidas” (militares que governaram o país).
Além disso, ironizou manifestantes que, segundo ela, gritavam palavras de ordem contra Hugo Chávez, Evo Morales e Fidel Castro em frente à residência de Olivos.
Por fim, para completar, lembrou que os protestos não nasceram de forma espontânea, como os que derrubaram Fernando de la Rúa, em 2001. Sugeriu que foram organizados por e-mail, ainda na manhã de terça-feira.
Quando se refere ao suposto apoio dado aos ditadores militares, Cristina dispara acusações muito serias. Afinal, fazendo um raciocínio bastante raso e simplista, não é preciso ser muito astuto para supor que esse apoio não teria origem em locais como La Matanza, paupérrimo distrito dos arredores da capital.
Considerando que o líder piquetero Luís D’Elía já andou dizendo que odeia a “puta oligarquia” moradora dos bairros nobres de Buenos Aires, como a Recoleta (tão adorada por turistas brasileiros), creio que é hora de tomar mais cuidado com os ânimos.
Se, durante a crise de 2001, a união de argentinos das mais diversas origens e condições sociais foi o motor principal de tudo o que ocorreu naqueles conturbados dias, hoje as diferenças, mágoas e cicatrizes começam a ficar mais expostas.
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