Um líder de papel
Mais uma vez, Nicolas Sarkozy pediu a libertação de Ingrid Betancourt. Em mensagem dirigida ao líder das Farc, Manuel Marulanda, o presidente francês resolveu recorrer a um tom conciliador e humanista, tentando sensibilizar Marulanda, atribuindo a ele a responsabilidade por uma eventual morte da refém franco-colombiana.
Ponto para ele. Quando se trata de vidas humanas, o melhor caminho é mesmo praticar a humildade, estender a mão e propor o diálogo. Em muitos casos, discursos inflamados e intolerantes contra guerrilheiros terroristas podem piorar as coisas. Bombardeios além-fronteira, então, nem se fala.
Se há a possibilidade de resolver o impasse por meio de um acordo, desde que haja bom senso e justiça, essa deve ser a escolha de ambas as partes.
Mas o que mais chama a atenção na postura de Sarkozy é a disposição que ele tem para tratar desse assunto. Uma vontade e um interesse maiores até que os de Hugo Chávez, eleito pelas Farc interlocutor oficial do tal “acordo humanitário”.
Neste último pronunciamento, por exemplo, Sarkozy ressaltou seu compromisso com a libertação de Betancourt dizendo que “seu país não tem o direito de ficar passivo” em relação à vida de uma mulher que há seis anos na escuridão de um mundo paralelo, na selva colombiana.
Ontem, no programa do Jô, o publicitário Juan Carlos Lecompte, marido de Betancourt, fez um apelo ao presidente Lula, para que ele se envolva mais com o caso, faça uso de sua condição de presidente do maior e mais importante país da América do Sul, e negocie a libertação de sua mulher.
Nada mais correto e sentato. Se Lula quer mesmo fazer do Brasil o líder natural de seus hermanos de continente, precisa se dedicar mais aos problemas e realidades inerentes a estes. Hoje, o Planalto soltou uma nota em que Lula manifesta apoio e solidariedade ao pedido de Sarkozy e diz que espera uma solução humanitária para o problema.
É pouco. Lula precisa viajar à Colômbia, reunir-se com os parentes dos reféns, conversar com o presidente Uribe, com Hugo Chávez, com Rafael Correa, com Manuel Marulanda. Com quem for preciso. Lembro aqui que até Néstor Kirchner, ex-presidente argentino, ofereceu-se para acompanhar a missão que libertaria Clara Rojas e Consuelo González. E Lula, por que insiste em acompanhar tudo de longe?
Enquanto não deixar de dar as costas aos reais problemas da América do Sul, o Brasil jamais será reconhecido como um legítimo líder do continente. Quem faz a mediação entre Uribe e as Farc? Chávez e Sarkozy. Quem faz a mediação entre Uruguai e Argentina na questão das papeleras? O rei Juan Carlos, da Espanha. Qual foi o único presidente das principais nações da região a não comparecer à Cúpula do Rio, na República Dominicana, em plena crise entre Venezuela, Equador e Colômbia? Lula. Quem, aliás, acabou botando panos quentes na situação? A Organização dos Estados Americanos.
Ao se deslumbrar com convites para discursos em fóruns econômicos e reuniões das principais potências mundiais, nosso país se comporta como aquele menino tolo que se acha o máximo por andar com os bonitões do colégio. Aquele menino que, na hora do aperto, vai perceber que nenhum daqueles com quem andava eram realmente seus amigos, seus companheiros de causa e de luta.
Antes de pleitear um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU - apenas para citar um exemplo - nosso país, e nosso governo, precisa cuidar mais das nações que realmente podem ser de fato nossas aliadas. Quem quer ser líder precisa ser admirado. Precisa ser uma referência. E discursos (ou notas emitidas por assessores e gabinetes) não bastam para que se chegue a isso.
-x-
Para não perder o costume: quem quiser ler o que nossos hermanos pensam do Brasil como líder do continente, pode acessar o especial que a BBC preparou sobre o assunto. Um belíssimo e louvável trabalho, em que repórteres foram enviados a 11 países sul-americanos para fazer a coisa certa: reportagem in loco.
Arquivado em: América Latina | Tagged: Betancourt, Brasil, Chávez, Colômbia, Farc, França, liderança, Lula, Sarkozy